Junho estava chegando e com ele toda a euforia dos preparativos para a grandiosa festa junina. Na escola não se falava outra coisa a não ser nos ensaios da quadrilha, na escolha dos pares, no concurso de rei e rainha e nos demais apetrechos para a festa. Até o tema das redações era sobre isto.
E na medida em que todos foram entrando no clima da comemoração, Mariazinha, aluna do quinto ano e que havia chegado à cidade há 3 meses, na sua inocência, não teve como resistir a tamanha influência. Ao chegar em casa estava entusiasmada, eufórica e levava consigo todos os desafios e tarefas que, juntamente com os seus colegas havia recebido na intenção de colaborar na execução do festejo.
Em casa dona Aparecida, mesmo ocupada com os afazeres domésticos, e também imersa na missão de cuidar do filho João Bento que era autista, não deixou de perceber a agitação da pequena Maria. Os olhos da menina brilhavam. Doce Maria, tão meiga e serena que era impossível resistir ao seu sorriso. A todos contagiava com sua singeleza e simpatia. Mamãe Aparecida, atenta ao que estava acontecendo, não querendo magoar o coraçãozinho de sua pequena joia preciosa e ao mesmo tempo consciente que não podia ser omissa nesta hora, por um momento deixou de lado todas as coisas, tomou Maria em seus braços, beijou-a e após um longo e carinhoso abraço misturado com uma silenciosa oração pedindo sabedoria, disse: Minha preciosa filha sei o quanto estar junto com os seus coleguinhas e ter coisas em comum com eles é importante para você, mas quero que você escute com muita atenção o que vou lhe dizer. Até hoje você nunca participou desta festa e mamãe ainda não lhe havia falado sobre isto porque no lugar de onde viemos isto não existia. Amamos e respeitamos todas as pessoas com a sua cultura, costumes e crenças. No entanto temos as nossas próprias convicções e hoje nos valemos do nosso direito de não fazer o que a maioria está fazendo. Mas houve um tempo minha filha no qual eu e o seu pai, o José, na intenção de desfrutar da companhia das pessoas, querendo ser aceitos por elas, participávamos de tudo o que os nossos conhecidos participavam sem refletir sobre as origens destes festejos. Queríamos agradar ao nosso próprio coração. Mas a nossa alegria só durava enquanto a música tocava, enquanto as luzes e o movimento das pessoas nos distraiam de nossas angústias e incertezas. Mas tão logo a festa acabava voltávamos a um viver sem uma viva esperança.
José Soares Filho

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